NOTA DA SABEH EM APOIO AO POVO KARIRI-XOCÓ DE PAULO AFONSO-BA

NOTA DA SABEH EM APOIO AO POVO KARIRI-XOCÓ DE PAULO AFONSO-BA

Há uma questão central quando pensamos a espécie humana: sua origem e dinâmicas de ocupação do mundo. Assim, tão enigmático quanto a memória da história humana enraizada ao continente Africano é a ocupação da América e a dispersão dos povos originários pelos diferentes cantos do Brasil.

Sabemos, o Rio São Francisco guarda parte dessas respostas, haja vista, ter sido rota de entrada dos primeiros humanos na América, como testemunha a cultura material pré-colonial em todo o seu leito, com datação superior aos 14 mil anos estabelecidos para o Estreito de Bering, uma das referencias internacionais sobre a ocupação das Américas.

Sabemos que este rio ainda é povoado por quase 40 etnias indígenas, distribuídas em mais de 40 territórios tradicionais, a saber: Kaxagó, Kariri-Xocó, Tingui-Botó, Akonã, Karapotó, Xocó, Katokin, Koiupanká, Karuazu, Kalankó, Pankararu, Fulni-ô, Xucuru-Kariri, Pankaiuká, Tuxá, Pipipã, Kambiwá, Kapinawá, Xukuru, Pankará, Tupan, Truká, Pankararé, Kantaruré, Atikum, Tumbalalá, Pankaru, Kiriri, Xacriabá, Kaxixó, Pataxó, Tuxi, entre outros. A população estimada é de cerca de 100 mil indígenas.

Dado ao acúmulo de formulação a respeito do que seria um território tradicional, como consta em documentos oficiais, nacionais e internacionais, como a Convenção 169 da OIT-ONU, destacamos o caráter simbólico-espiritual associados a estes territórios, para a maioria dos povos indígenas da Bacia do São Francisco, sagrados.

Como podemos observar na tese de doutorado do Dr. Juracy Marques, defendida no programa de pós-graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (UFBA),  do manto dos territórios tradicionais indígenas da Bacia do São Francisco, a região onde estão localizadas as cachoeiras de Paulo Afonso, aparece na memória tradicional desses grupos como um espaço sagrado, ritualístico, acessado por diferentes povos indígenas como elemento vital da sua reprodução cultural.

Importante ressaltar que para quase todos os povos indígenas do mundo, as cachoeiras são lugares sagrados onde, para alguns desses povos, vivem seus espíritos ancestrais. É assim, também, com os povos indígenas do São Francisco.

Acontece que, desde as primeiras décadas dos anos 1910 que esses lugares sagrados foram assaltados por um modelo civilizacional, etno e ecocida, que em nada considerou a dimensão sagrada desses povos originários. Desde então, TODOS AS CACHOEIRAS FORAM TRANSFORMADAS EM CORTINAS DE CIMENTO PARA A GERAÇÃO DE ENERGIA. Não há nada na dimensão da reparação de danos que discuta a destruição desses espaços sagrados. Eles nunca foram considerados embora, como constam em algumas decisões, gradativamente, o direito no nosso país, tem tomado pé das dimensões simbólico-sagradas nos processos de reparação de danos.

Em  virtude dessas intervenções que vitimaram mais de 250 mil pessoas em toda a Bacia, entre as quais diversos povos indígenas, num cenário marcado por um regime político ditatorial que em nada considerou o direito ao sagrado dessas nações originárias do Opará, Rio Mar, em particular, O TERRITÓRIO SAGRADO DAS CACHOEIRAS DE PAULO AFONSO FOI VIOLENTAMENTE TIRADO DOS POVOS INDÍGENAS, ENTRE OS QUAIS, OS KARIRI-XOCÓ E OS PANKARARU, povos envolvidos na questão dessa nota da SABEH.

É incontestável que toda a região que envolve esse território das cachoeiras de Paulo Afonso é TERRITÓRIO TRADICIONAL INDÍGENA, assaltado desde o período colonial dos povos e ratificado nos tempos futuros até chegar à questão que se apresenta: CHAMADOS PELA ANCESTRALIDADE PARA PRÓXIMO DE SUAS MEMÓRIAS TRADICIONAIS E, OCUPANDO UMA TERRA ABANDONADA, DIRÍAMOS, UMA TERRA PÚBLICA, O POVO KARIRI-XOCÓ E OUTROS PARENTES, SE ESTABELECERAM NAS TERRAS SAGRADAS DA CACHOEIRA DE PAULO AFONSO E FORAM VIOLENTAMENTE EXPULSOS POR UM SENTIDO JURÍDICO QUE SE COLOCA A FAVOR DE UMA IDEIA DE POSSE TERRITÓRIAL JUSTIFICADA PELA EXPROPRIAÇÃO AO LONGO DA HISTÓRIA, OU SEJA, EVIDENTIMENTE, O QUE TÁ EM PAUTA É UMA QUESTÃO RACIAL E UMA ATUALIZAÇÃO DAS DIFERENTES FORMAS DE VIOLAÇÃO DOS DIREITOS INDÍGENAS NO BRASIL.

Nós, da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH), queremos fazer coro à exigência de que, ao menos nesse momento da história e nesse pequeno terreno do nosso Brasil, algo de justo seja feito em favor do direito de viver dignamente de uma parcela pequena dos filhos do Brasil: A DEFESA DO TERRITÓRIO DO POVO KARIRI-XOCÓ DE PAULO AFONSO!

SABEH – SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECOLOGIA HUMANA

No comments.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *