Revista Ecologias Humanas – Vol 4. nº.4 – 2018

Revista Ecologias Humanas – Vol 4. nº.4 – 2018

Capa de Livro: Revista Ecologias Humanas - Vol 4. nº.4 - 2018

por Dr. Ernani Machado de Freitas Lins Neto

Definições mostram-se interessantes pontos de partida nas apresentações de campos de es- tudo, uma vez que permite ao interlocutor defrontar-se com as ideologias incrustradas nas distin- tas concepções que um mesmo objeto pode assumir. Contudo, pavimentar epistemologicamente os caminhos conceituais da Ecologia Humana extravasaria os limites deste editorial. A característica uida dessa ciência ou paradigma, como provoca Bon m (2017), promove uma angustia existencial, sobretudo na mente cartesiana, ao tentar estabelecer fronteiras teóricas. Restrinjo-me a comentar que a Ecologia Humana mostra-se como uma propriedade emergente resultante dos processos interativos dos distintos campos do saber na busca incansável para lançar luz sobre os fenômenos intrínsecos e extrínsecos ao humano e suas reverberações no planeta. Nesse sentido, estudos de Ecologia Humana sobressaltam-se na geração de inquietações acadêmicas promotoras de novos olhares e práticas, cada vez mais despudorados, responsáveis por rompimentos e surgimentos de múltiplos paradigmas.

De maneira geral, o pensamento cientí co progride a partir das potencialidades mutacionais da natureza transitória das suas verdades ou como bem sintetizado por Max Planck “a ciência avança de funeral em funeral”. Ao longo de décadas ignorou-se o ser humano como um dos distintos com- ponentes do ecossistema. Sempre ponderou-se no sentido dos efeitos em cascata promovidos por distúrbios antropogênicos sobre distintos serviços ecossistêmicos, mas pouco se questionou acerca das repercussões negativas da privação do animal humano no ambiente. Evidências geradas a partir de estudos recentes (ver Albuquerque et al. 2017) sinalizam para mudanças paradigmáticas ao se considerar a permanência de grupos humanos em áreas a serem “conservadas”. Para esses casos, pru- dência é a tônica, exigindo com isso a adoção de cautela e, por conseguinte, avaliando cada caso com a particularidade necessária. Torna-se oportuno chamar ao debate emblemático estudo (ver Levins et al. 2017) conduzido na região Norte do Brasil, o qual, por meio de fortes evidências, corroborou veementemente a tese da Floresta Amazônica, tida com uma das últimas áreas prístinas, na verdade gurar-se numa paisagem antrópica em quase sua totalidade. Assim o mito moderno da Natureza intocada (Diegues 1996) tornou-se novamente a pauta central nos acirrados debates acadêmicos vol- tados ao entendimento das repercussões da presença da espécie humana na Terra. Mais uma vez a Ecologia humana posiciona-se na vanguarda das discussões conservacionistas e de sustentabilidade.

Independente do olhar, do método, de uma perspectiva mais ou menos sintética, o Ecólogo Humano deve esforçar-se para não incorrer no erro de “analisar as árvores esquecendo-se de ver a oresta da qual a árvore é uma expressão”, como alerta Boff (2014). Ainda segundo este francis- cano ao tratar de sustentabilidade, redirecionado aqui por mim para a praxis da Ecologia Humana, a nossa prática deve ser imbuída “da capacidade de sentir, de ter afeto e de se comover sem, com isso, pretender invalidar a contribuição imprescindível da razão”. Diante do exposto, e como poderá ser contemplada nesta quarta edição da Revista da SABEH, a prática da Ecologia Humana mantem essencialmente fundamentada no rompimento dos grilhões dos rótulos, reunindo pesquisadores das mais diversas áreas do saber, distribuídos nos variados campos de estudo, a exemplo da psicanálise, ecologia médica, segurança alimentar, arqueologia, religiosidade etc. Em outras palavras, a dimensão do humano sendo explorada em suas potencialidades. Por m, salienta-se o fato da Ecologia Humana inexoravelmente, e de maneira superlativa, naturalmente ocupar lugar de destaque no Antropoceno, no qual questões ainda não resolvidas e novas inquietações éticas e morais, por exemplo, suscitadas por avanços cientí cos e tecnológicos terão naquela o arcabouço epistemológico para encarar e supe- rar desa os vindouros. Nesse sentido convido-os a boa leitura.

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